01Um aviso sem palavras
Você já viu alguém com um cordão de girassóis ou de quebra-cabeça no pescoço, numa fila, num aeroporto, no supermercado? Esses cordões avisam, sem que a pessoa precise explicar nada, que ela tem uma condição que nem sempre aparece, e que pode precisar de um pouco mais de tempo, paciência ou ajuda.
O uso é opcional. Quem usa pode precisar mostrar um documento quando for pedido. Quem não usa tem exatamente os mesmos direitos.
02Toque em um cordão
Toque em um cordão para ver a explicação.
🌻 Cordão de girassol: deficiências ocultas
Símbolo nacional oficial, instituído pela Lei Federal nº 14.624/2023.
Indica que a pessoa tem uma deficiência ou condição que não se vê de fora. Alguns exemplos: autismo, deficiência auditiva, deficiência intelectual, epilepsia, fibromialgia, doença de Crohn e outras doenças intestinais, diabetes e demência. O cordão não diz qual é a condição, e você não precisa saber.
No dia a dia
- Respeite o atendimento prioritário, mesmo que a pessoa "pareça bem".
- Pergunte "posso ajudar? como?" em vez de supor.
- Dê tempo para a pessoa responder, entender ou se movimentar.
- Se ela tiver dificuldade para ouvir: fale de frente, sem cobrir a boca, com frases curtas. Escrever também vale.
- Ofereça um lugar para sentar e, se for o caso, indique o banheiro mais próximo.
Em uma crise
O que fazer depende da condição. Três situações que podem acontecer na sua frente:
Convulsão (epilepsia): mantenha a calma e marque o tempo. Afaste objetos, proteja a cabeça com algo macio e, assim que der, deite a pessoa de lado. Não segure os movimentos e não coloque nada na boca. Fique ao lado até ela recobrar a consciência: é normal ficar confusa por alguns minutos. Ligue 192 se passar de 5 minutos, se repetir, se ela se machucou ou não voltar a si.
Queda de açúcar (diabetes): suor frio, tremor, palidez, confusão. Se a pessoa estiver acordada e conseguir engolir, ofereça algo com açúcar (suco, refrigerante comum, balas). Se ela desmaiar, não dê nada pela boca e ligue 192.
Desorientação (demência): fale baixo e devagar, diga quem você é, não discuta nem corrija. Leve para um lugar tranquilo e procure no cordão ou nos documentos um contato da família.
🧩 Cordão de quebra-cabeça: autismo (TEA)
A pessoa com TEA é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais (Lei nº 12.764/2012). A Lei nº 13.977/2020 criou a carteira de identificação da pessoa com TEA (CIPTEA).
O Transtorno do Espectro Autista é uma forma diferente de perceber o mundo, se comunicar e se relacionar. É um espectro: cada pessoa é de um jeito. Muitas têm sensibilidade maior a sons, luzes, cheiros e toque, e se apoiam em rotinas e previsibilidade.
No dia a dia
- Use linguagem clara e direta, uma instrução por vez, sem ironia ou duplo sentido.
- Dê tempo para a resposta. Silêncio não é falta de educação.
- Avise antes de mudanças ("daqui a pouco vamos para outra sala").
- Não force o olhar nos olhos nem o toque.
- Movimentos repetitivos, como balançar o corpo ou as mãos, ajudam a pessoa a se regular. Não interrompa.
Em uma crise
Uma crise de sobrecarga não é birra nem falta de limite: é o corpo no limite dos estímulos. Pode vir como explosão (choro, grito, agitação) ou como desligamento (a pessoa se fecha e para de responder).
- Reduza os estímulos: baixe o som, afaste curiosos, uma pessoa só falando.
- Fale pouco, baixo e devagar. Não faça muitas perguntas.
- Não toque nem segure sem permissão, a não ser que haja perigo imediato.
- Ofereça um canto mais calmo e procure o acompanhante: ele costuma saber o que ajuda.
- Espere. A crise passa no tempo da pessoa. Depois, não cobre explicação.
Se houver risco de ela se machucar e não for possível proteger, ligue 192.
♾ Cordão de infinito colorido: neurodiversidade
Símbolo criado pela própria comunidade autista. Não tem lei específica: o direito vem da condição, não do cordão.
O infinito representa a diversidade dos cérebros. Colorido, ele fala da neurodivergência em geral: autismo, TDAH, dislexia e outras formas de funcionar. Na cor dourada, costuma indicar o autismo.
No TDAH, por exemplo, a atenção, a impulsividade e a agitação funcionam de outro jeito: a pessoa pode se distrair, esquecer combinados ou interromper sem querer. Na dislexia, ler e escrever exige mais esforço.
No dia a dia
- Combine as coisas de forma curta e, se der, por escrito.
- Tenha paciência com esquecimentos e interrupções. Não é desinteresse.
- Se puder, ofereça um ambiente com menos barulho e menos distração.
- Pergunte como a pessoa prefere receber a informação.
Em uma crise
A crise costuma ser de sobrecarga: barulho, pressa, cobrança ou estímulo demais ao mesmo tempo. Vale o mesmo cuidado do autismo: menos estímulo, poucas palavras, espaço, nada de toque sem permissão, e tempo. Não diga "calma" nem "isso é exagero". Fique por perto e espere passar.
🦋 Cordão roxo: fibromialgia
Cordão roxo, com borboletas ou laços, reconhecido por leis estaduais (como a Lei nº 24.361/2026, de Goiás). A fibromialgia também está entre as condições do cordão de girassol.
A fibromialgia é uma condição de dor crônica espalhada pelo corpo, que costuma vir com cansaço, sono que não descansa e dificuldade de concentração. Ela não aparece nos exames comuns, e por isso muita gente com fibromialgia já ouviu que a dor "é coisa da cabeça". Não é.
No dia a dia
- Acredite na dor. Não compare nem minimize.
- Ofereça assento e respeite a prioridade em filas.
- Evite apertos de mão fortes, abraços apertados e tapinhas nas costas.
- Respeite o ritmo: há dias bons e dias ruins.
Em uma crise de dor
- Ajude a pessoa a sentar ou deitar num lugar tranquilo.
- Pergunte o que costuma ajudar: o remédio que ela já usa, calor, silêncio, alguém para chamar.
- Não insista para ela se mexer ou "reagir".
Se aparecer dor no peito, falta de ar, desmaio ou uma dor muito diferente da habitual, ligue 192.
03A regra que vale para todos
E quando a crise é emocional?
Qualquer pessoa, com ou sem cordão, pode ter uma crise de ansiedade ou de pânico: coração disparado, falta de ar, medo de morrer. Fique por perto, fale com calma e respire devagar junto com ela, contando: puxa o ar em 4, solta em 6. Evite "calma, não é nada". Para ela, é muito.
E quem cuida?
Mães, pais, parceiros e cuidadores costumam carregar um cansaço que ninguém vê. Cuidar de si também faz parte de cuidar do outro. Se for o seu caso, a terapia pode ser um espaço só seu, para organizar o que pesa.
Aviso importante. Este conteúdo é informativo e não substitui diagnóstico, tratamento ou orientação de profissionais de saúde. As orientações de primeiros socorros são gerais: em qualquer dúvida, ligue para o SAMU, 192. O Instituto Boldrin atua de forma complementar e nunca solicita a suspensão de medicação ou de tratamento conduzido por outro profissional.
Se você está em sofrimento intenso ou pensando em se machucar, procure ajuda agora: CVV (Centro de Valorização da Vida), telefone 188 (ligação gratuita, 24 horas) ou cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192.
Convive com alguém assim, ou é você quem usa o cordão?
Me conta em poucas palavras o que você está vivendo. A partir daí eu te explico como a gente pode trabalhar, e você decide.
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